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Em entrevista para o Transcares, Lauro Valdívia mostra que alta do diesel expõe crise histórica do frete no TRC

Em entrevista para o Transcares, Lauro Valdívia mostra que alta do diesel expõe crise histórica do frete no TRC

A disparada no preço do diesel, impulsionada por um cenário global de instabilidade, trouxe urgência a uma pauta antiga do transporte rodoviário de cargas: a defasagem dos valores de frete. Que os aumentos recentes são efeito da crise, não há dúvidas! Porém, numa análise 360 graus, trata-se de um  problema estrutural, que vem comprimindo, há anos, a sustentabilidade das transportadoras. Agora, com custos em alta e dificuldade de repasse, o desequilíbrio se intensifica e acende um alerta para toda a cadeia logística. Como diz o assessor técnico da NTC & Logística (Associação Nacional do Transporte de Cargas e Logística), Lauro Valdívia, “o momento expõe fragilidades históricas e coloca em risco o fluxo de abastecimento no País”.

O tema, de relevante passou a urgente. Tanto que na segunda quinzena de março, houve uma corrida das entidades representativas do transporte rodoviário de cargas e logística, dentre elas o Transcares, avaliando a urgente recomposição de custos e reequilíbrio do valor do frete e repassando a informação aos transportadores.

Considerado uma das autoridades do assunto no Brasil, Valdívia é categórico. Segundo ele, a defasagem do frete é um problema estrutural do transporte rodoviário de cargas e logística, e persiste principalmente devido ao desequilíbrio na relação entre oferta e demanda, à forte concorrência no setor e à dificuldade histórica de repassar integralmente os custos aos embarcadores. 

“Além disso, há uma pressão constante por redução de preços, que muitas vezes desconsidera a real composição de custos da operação”, esclareceu ele na entrevista, que trouxe à tona outros pontos. Confira!

 

TRANSCARES – Lauro, estamos vivendo tempos de disparada no preço do diesel, impulsionada pela guerra, mas como você mesmo disse, defasagem do frete é um problema estrutural do segmento. Que fatores explicam essa defasagem em um cenário “normal”?

LAURO VALDÍVIA – Mesmo sem crises externas, a defasagem ocorre por fatores como falta de barreiras de entrada no setor, baixo poder de negociação das transportadoras frente aos embarcadores, falta de atualização frequente dos contratos de frete, desconhecimento ou desconsideração dos custos reais da operação, e informalidade em parte do setor. Esses elementos, juntos, comprimem as margens e dificultam a sustentabilidade das empresas.

 

Em um contexto global de guerra, com pressão sobre combustíveis e insumos, quais são os efeitos imediatos sobre o transporte rodoviário de cargas no Brasil? 

Em um cenário de instabilidade global, como guerras que pressionam combustíveis e insumos, os efeitos imediatos incluem aumento expressivo do diesel – vale lembrar que agora em março, em apenas duas semanas, a ANP apontou um aumento de 19,5% no preço do diesel S10 –, elevação de custos operacionais em cadeia (manutenção, pneus, insumos), maior volatilidade nos preços e pressão sobre contratos logísticos já defasados. Isso gera um impacto direto e severo na operação das transportadoras, já que o aumento dos custos não é acompanhado pelo reajuste do frete. 

 

Lauro, esse cenário atual apenas agrava a defasagem existente ou cria novas distorções no mercado de frete? 

Ambas as situações. Olhando para o cenário atual, agrava a defasagem histórica, cuja última medição feita pela NTC é de 10,1%, tornando-a ainda mais insustentável, e cria novas distorções, como desequilíbrios contratuais, aumento da insegurança jurídica e pressões regulatórias que nem sempre atacam a raiz do problema.

 

Quais são os principais riscos para as transportadoras quando não conseguem repassar adequadamente esses aumentos de custos? 

Perda de margem e prejuízos operacionais, comprometimento do fluxo de caixa, endividamento crescente, redução de investimentos em frota e tecnologia, risco de interrupção das atividades e, em casos mais críticos, pode levar à inviabilidade do negócio.

 

Que consequências essa defasagem pode trazer para a economia como um todo, especialmente no abastecimento e no preço final dos produtos?

A defasagem do frete impacta diretamente no abastecimento nacional, uma vez que o abastecimento de quase a totalidade das cidades depende do caminhão. Além disso, o preço final dos produtos tende a subir com custos reprimidos e, num sentido mais amplo, a defasagem impacta negativamente na eficiência logística do País. A NTC&Logística reforça que a manutenção do equilíbrio econômico-financeiro do setor é fundamental para garantir o fluxo de bens em todo o território nacional. 

 

Na sua avaliação, quais caminhos ou medidas são necessários para equilibrar essa equação e garantir a sustentabilidade do setor?

Dentre as principais medidas, posso destacar a necessidade de revisão imediata das tarifas de frete, com repasse dos custos, um maior equilíbrio na relação entre transportadores e embarcadores, fiscalização de práticas abusivas ou especulativas nos preços de insumos, segurança jurídica nas regulações do setor, e políticas públicas que considerem a realidade operacional das empresas. O repasse de custos não é opcional, estamos falando de algo essencial para a sobrevivência das empresas e para a continuidade do abastecimento nacional.  

 Por Anna Carolina Passos

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